Ecomuseu da Serra da Lousã




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PISO 0 - EXPOSIÇÃO PERMANENTE

CarrosCarros

"Os primeiros carros que aparecem foram só de um animal, isto é, com varal duplo. Dizem que era mais simples pela aptidão da tal forquilha que dão as árvores, ter um par de animais e ligá-los por uma trave. Há opiniões diversas e não vamos discutir isso, simplesmente o sistema de atrelagem pressupõe uma trave, principalmente, as juntas, só temos aqui carros de juntas e então vamos ver se as nossas cangas também são iguais."

Louzã Henriques in visita guiada


CangasCangas

"... o sistema de atrelagem, dizem algumas pessoas, talvez o homem tivesse atrelado, primitivamente, primeiro o animal que conseguisse domesticar e tivesse posto qualquer coisa ao pescoço com um pau de um lado e outro, do outro, eventualmente, uma coisa tipo canga ou uma vara flexível que depois lhe montasse um cesto ou qualquer coisa no meio." "... O aparecimento do milho deu um enriquecimento muito grande às pessoas que tinham terras junto de rios e tinham água (eu creio que se a cortiça permitiu um capitalismo agrário no Sul e o vinho permitiu um capitalismo agrário no Norte, o milho também permitiu um capitalismo agrário nos grandes Vales dos rios do Norte do país). Quando há uma certa riqueza, as pessoas têm de dar aos seus carros, aos seus bois, às suas cangas, o prestígio da sua casa, elas ficam também como um brasão e então fazem-se cangas de luxo. Cangas para levar às festas, para levar a feiras e que são o prestígio da casa. ..."

Louzã Henriques in visita guiada

AradosArados

"Á génese do arado atribuem-se várias hipóteses: desde uma pequena enxada que depois é puxada por um temão, ás vezes tiradoira, onde se aplica a força de animais ou o aproveitamento natural de alguns pedaços de árvores que tinham fundamentalmente três peças - uma capaz de rasgar a terra, outra de ser ligada aos animais, e outra que lhe desse direcção, que era a rabiça. Três peças: rabiça, temão e dente. O que rasga a terra podia ser o aproveitamento, a vocação natural, de pedaços de árvores ou poderia ser de velhos sistemas parecidos com uma enxada, a que no prolongamento do seu cabo, apenas se acrescentava uma coisa para cortar." "... alguns destes aparelhos, ou destes arados ligados a uma cultura aratória, isto é, que já utiliza o arado para aumentar a produtividade da terra, concretamente os cereais, têm o seu protótipo evolutivo nas formas mais arcaicas, aquelas que apareceram na Suméria, onde é agora o Iraque, e que apareceram no Norte da Índia (se formos ver pequenos arados que acompanham sepulcros de grandes senhores, miniaturas como doação aos mortos, eles apontam neste sentido das três peças). Isto estende-se por todo o mundo. Quando nós olhamos para aqui e dizemos que é português, e podemos até entrar num nacionalismo um bocadinho idiota e dizer é português, isto estende-se a todo o mundo. Este modelo existe em todo o sítio do mundo onde começou a haver agricultura um pouco mais desenvolvida." "... utiliza-se a palavra arado para aqueles que têm o mínimo de ferro, pouco mais do que uma peça de ferro para rasgar a terra e a que se chama relha ..."

Louzã Henriques in visita guiada

Cerâmica / OlariaCerâmica / Olaria

"...a olaria portuguesa e concretamente a olaria que vem até aqui, também tem essa possibilidade de encontro e de transculturação do Norte e do Sul,(...). Há quem diga com mais razão ou com menos razão que a olaria com uma forma alongada, estamos a falar concretamente na «olaria útil», aquela que é para trazer água, concretamente o que se chamam os «hidro-cerâmes», potes, etc., aquela que se aproximava mais de uma forma como a ânfora, como todos se lembram da ânfora que vem nos livros, vem também pela cultura mediterrânica, é também romanoárabe. Mas o velho oleiro, que em Portugal é predominantemente de origem árabe, fazia a asa inteira, de uma só peça, enquanto a tendência para uma asa entrançada seria de uma velha olaria mais de origem germânica."

LouzãHenriques in Arunce nº2

PásPás

"... está aqui uma razoável amostragem das pás (célebres) de valador. Eram trabalhos difíceis, normalmente eram homens da região da Bairrada, que iam fazer este trabalho por toda a Zona do Ribatejo e até ao Alentejo. Um pouco antes das culturas, depois das chuvas, eles iam fazer o escoamento para começarem as operações agrícolas de lavragem. É uma pá estreita, fundamentalmente, para valar. Mais primitiva será esta, que é toda de madeira, depois aparece um modelo já mais trabalhado, no ponto de vista técnico, de carpintaria e com duas placas de ferro, uma por cima da outra, e depois aparece uma já cortada em ferro e com cabo (estes homens acabavam por ter problemas de saúde precocemente, porque começavam a trabalhar ali por Fevereiro, trabalhavam com água até ao joelho, calças arregaçadas e descalços e faziam horário de sol a sol)."

Louzã Henriques in visita guiada

EnxadasEnxadas

"O facto da estrutura geológica do nosso país ser, vá lá, a parte em que a meseta acaba, em que rapidamente os grandes vales caminham para o mar, em que começam, evidentemente, por uma grande zona sedimentar, pelo triângulo litoral português, e, ao mesmo tempo vales que se escapam muito rapidamente, obriga que em zonas muito próximas tenha de haver uma adaptação muito rápida de ferramentas. Terras densas, cheias de ovos (torrões de terras), ao lado terras muito arenosas, alguns metros acima terras muito cheias de pedra já bastante limpas de pedregulhos e outras coisas. Então vamos ter enxadas muito pesadas, de uma lavoura muito cruel e medieval. (...) Tem esta que é rectangular, eles não atribuem grande importância ao facto de ser em lua ou ser direita, atribuem é ao facto de ser mais ou menos rectangular, o ser a zona de ataque mais pequena, ou uma que falta cá, mas que será um bocado este tipo, mais larga em baixo e mais estreita em cima. (...) Esta no fundo é o mesmo modelo, não importa se é mais rectangular ou mais redonda, chamaram-lhe a "são só para três", (...) se reparem esta é em ferradura (...). O grande infestante nas terras da charneca são as estevas (...) é preciso arrancar aquilo tudo, arrancar as estevas, consideram o trabalho mais penoso da charneca ribatejana, alentejana. (...) Hão-de reparar que esta é uma pequena enxada e um pequeno machado, foi durante muito tempo considerada "o célebre sachão de cepas", servia para cavar á volta de qualquer planta e depois machadar. Temos aqui um exemplar antigo, já muito gasto, da Serra da Lousã, era o sachão, era a ferramenta dos carvoeiros, que arrancavam as torgas, faziam as cepas com esta ferramenta. Por exemplo, este sacho triangular, que não é uma enxada, na zona da Lousãé um dos poucos sítios onde ele se utiliza."

Louzã Henriques in visita guiada

PISO 2 EXPOSIÇÃO PERMANENTE - NÚCLEOS

 

FerraduraFerreiro

"E a Lousã até foi uma terra de bons latoeiros. Que esse sim, já pode ser profissional de latoaria, com loja própria ou itinerante, percorrendo uma corda de aldeias, fazendo obra nova e consertando o que estava velho. E é curioso que o latoeiro não só dava apoio à panela em que punha o pingo, para além de fazer o que lhe mandavam de novo, como assistia os pratos e as colheres de lata, uma vez que só os garfos eram, de facto, feitos pelo ferreiro. Além disso, é ainda ele cuida da loiça: é o grande consertador dos pratos partidos, que conserta pondo gatos. (...) os latoeiros podiam permitir-se fazer não só objectos utilitários como alguns outros "bonitos", como decorar uma velha candeia acrescentando-lhe alguns ornatos, cinzelando um pouco, fazendo umas florzinhas de lata que poderiam servir para fazer uma decoração quase idêntica (...). Esta arte está em extinção, como estão as do velho ferreiro e até a daquele que, já no nosso tempo, se vai chamar o serralheiro civil e que não é mais que um ferreiro requintado, capaz já de fazer obra de engenharia civil e montagens. A Lousãchegou a ter algumas tradições de ferro forjado, teve bons forjados, possivelmente subsidiários da escola de Coimbra, que foi talvez a maior escola de ferro forjado deste País. (...) os ferros forjados, a par com o azulejo e a cantaria, fizeram parte de uma tradição de construção, em Portugal, para as casas médias,..."

Louzã Henriques in Arunce nº7/10

Favo de MelApicultura

"...quando o homem descobre a possibilidade de ter uma qualquer forma de caixa na qual ponha as abelhas, já que não as pode domesticar,(...) vai servir-se dos materiais de cada região. Para nós é o cortiço, de muito fácil transporte. Nós, Serra da Lousã, o que é que temos disto? Um bocadinho da mitologia do mel! Uma coisa cheia de virtudes mágicas! Um bom alimento, grosso e escuro porque predomina fundamentalmente a urze,(...). O mel poderia representar alguma coisa na economia de sobrevivência, mas também não era produzido em quantidade, para poder deixar que algumas pessoas sobrevivessem apenas da produção do mel. O mel, teria uma função de complemento alimentar, uma função de pequeno medicamento para as coisas peitorais e também para eventuais feridas superficiais,(...) O camponês, o serrano, o homem da nossa zona, o homem de grande parte do mundo, servia-se do mel como alimento, em certos dias festivos. O mel, socialmente, para uma comunidade rural serrana, era também uma moeda de troca e uma chave de entrada no mundo já urbanizado no qual ele não tinha ou julgava não ter lugar. O mel não representava uma promoção suficientemente vigorosa para se viver exclusivamente disso, podia trazer um aporte de melhoria de vida em termos de dinheiro, mas tinha, sobretudo, uma função interna de alimento festivo para receber uma visita."

LouzãHenriques in visita guiada


LinharesLinho / Lã
"... a nossa região tinha rebanhos, tinha carneiros e, naturalmente, tinha uma coisa que já se perdeu e eram os linhares, terras de linhos. Possivelmente os nossos avôs e as nossas avós cultivaram, quando podiam, o linho em paralelo com o milho, com a batata, com o feijão. De qualquer modo havia alguma lã; de qualquer modo havia algum linho. E estas duas matérias-primas foram a condição que permitiu que se desenvolvesse não só a tecelagem como o tratamento do fio, conduzindo ao desenvolvimento de um artesanato predominantemente ou exclusivamente feminino. As formas de tecelagens vão desde as peças mais ou menos finas do linho - que ainda todos conheceram e têm encontrado nas arcas das avós - as mantas, colchas, tapetes, e outras, com uma decoração mais ou menos simples, mais ou menos requintada; vão do aproveitamento útil para o vestuário comum, para as roupas de cama, e outras que compõem os enxovais, até esta coisa simpática que são as mantas feitas de trapos que até o que crescia do serviço da costureira ia ser aproveitado para uma fiação que depois proporcionava jogos e efeitos de mistura de cores. A par da tecelagem da lãe do linho, desenvolve-se uma esplêndida técnica de rendeiras."

LouzãHenriques in Arunce nº7/10


TachoCozinha Serrana

"De facto há uma coisa muito interessante que é uma modificação deste comer simples e do povo e que é engraçado que os Lousanenses não esqueceram - "os aferventados". Que é uma ligeira modificação desta velha técnica do comer e modificar o sabor das couves, do pão, da batatita, do que tem próximo, do que tem à mão e naturalmente regado com aquilo que tem à mão, o azeite. A velha gordura mediterrânica de que até esta região é rica. Seria, creio eu, onde uma culinária popular, desta região, teria a sua matriz. O resto é de influência, é transcultural."

Louzã Henriques in Roteiro de Gastronomia


"A castanha não era simplesmente uma iguariazinha para comer no fim de uma refeição, mas era um alimento que durava parte do ano e era um alimento fundamental.(...) a castanha é de curta duração. O homem teve que inventar técnicas para a tornar mais duradoira(...) mel e castanha, elementos da nossa cultura que traziam uma carga de toda uma cultura tradicional do Grande Caldeirão civilizacional que foi o Mediterrâneo e a Europa, mas que foram do ponto de vista prático e do ponto de vista pragmático e utilitário, elementos de sobrevivência e, como tal, em determinadas alturas alimentos fundamentais. Foram culturalmente a chave que permitia, por vezes, chegar onde se queria, isto é, à urbanidade através do compadrio acantonado nas vilas e nas cidades."

Louzã Henriques in Arunce nº5/6

MóPão

"... a tecnologia do linho, estão coisas interessantes da tecnologia dos queijos, este sistema de eira, de malhar, estão ali os trigos, estão ali os manguais, estão aqui os tipos fundamentais. E está aqui assim uma coisa muito rara, que é a colecção completa das cirandas ou crivos, se repararem o primeiro parece africano, é de palha, e que é a ciranda ou cirandinha, é feita com palha de centeio e feita com um bocadinho de couro, e a seguir vem uma que é pele furada, embora já parecida com uma peneira, depois já não é pele furada é lata, e depois é arame... Os sistemas de moagem ... as mós ... estão aqui duas: aquela normalmente é grande, manual, estava num poial, estava apoiada, ás vezes andavam com o pau, com uma espécie de forquilha, para poder andar de longe, ás vezes era a própria mão. Tinha aqui um chanfro para sair a farinha moída, este tipo de moinho está muito perto do moinho romano, vocês encontram esta imagem também no mundo mediterrâneo, até ás vezes vêem os árabes que não têm água, nem vento, a moer com este tipo de moinho. ... Esta veio da região do Minho, e tem aqui uma outra, pequena, quase portátil, que está dentro de um cesto (há fotografias das algarvias, à noite, à porta da casa, a moerem o milho, com que faziam as papas frescas, a algarvia de perna aberta com a ceira no meio para a farinha cair dentro da ceira, e evidentemente, com uma mão ia regulando a quantidade de milho e com a outra ia moendo). Já agora, digo que aquela cesta chama-se alcofa, e que as papas de milho chamam-se charém, a qual se juntam ervilhas ou toucinho ou coisas assim do género."

LouzãHenriques in visita guiada

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